Kenia Maria fala de novo livro e do casamento com Érico Brás

Kenia Maria, defensora dos Direitos das Mulheres Negras da ONU, produtora e atriz, escreverá seu primeiro livro autobiográfico, a ser lançado em . Racismo na primeira pessoa é o nome da obra, que terá depoimentos dela sobre a luta antirracista e declarações de outros colaboradores. A escritora, que também trabalha em projetos de roteiro para a TV, conta como foi seu processo criativo:

— Em maio perdi o meu pai. Em agosto, foi ao ar o Pai on-line , quadro do É de casa , em que ele foi homenageado pelo Érico Brás, apresentador e marido de Kenia. No meio deste tanto de caos e alegria, veio meu neto. Foi uma mistura de sentimentos: insegurança, entre eles. E a escrita foi uma cura. A pandemia deixou muitos órfãos. Eu fiquei sem pai, tem muita gente sem mãe. São mais de mil vidas perdidas só por Covid, e para o racismo a gente perde um avião de jovens negros por dia. Eu escolhi a escrita e a dramaturgia para acessar essas dores.

— A gente fala do lado bonito: eu sou uma mulher jovem, minha filha também é, mas tudo isso me levou para a terapia. A gravidez dela me assustou muito no começo. Ela me disse no fim do ano passado: Estou grávida . Eu pirei: Sou uma mulher negra com uma filha negra de anos grávida . Só que eu sou também uma mulher que cultua a ancestralidade africana. Então, comecei a tentar ler as coisas de outra forma. E a mensagem que recebi foi esta: tudo parou para ele nascer. O nome dele significa alegria. Ele me tirou do luto à força.

Foi dando tempo ao tempo e seguindo sua intuição que Kenia Maria e o ator Érico Brás, apresentador do Se joga , decidiram reatar o casamento, antes da quarentena, após um ano separados:

— Estávamos distantes e aí resolvemos voltar risos. A quarentena me ajudou muito a analisar os casais. A quantidade de términos e divórcios desmontou um pouco essa idealização do casamento ocidental que a gente tem, de que para ter felicidade tem que estar junto. Eu e ele voltamos, mas tem coisas de que não abro mão: de ter meu canto, minha casa, que eu chamo de meu ateliê. Às vezes falo: Quero ficar na minha casa . Eu moro com ele, mas às vezes eu fico no meu ateliê. Eu propus tirar o casamento desse lugar convencional porque nós somos pessoas que precisam criar. Eu preciso da solidão para criar. Somos um casal necessário de ser visto: a família negra é uma instituição importante. Mas a relação fica saudável quando você não se encaixa, quando não segue padrões ditados pelos outros. Dormir de conchinha, por exemplo, para mim é péssimo. Sou capricorniana, adoro dormir sozinha risos. Se ele também estiver precisando respirar, ele sai. Ele é pisciano, muito solto. Ele some quando precisa se entender e se respeitar.

Neste mês, em que se comemora a Consciência Negra, Kenia diz que o país trilha seu caminho na luta antirracista:

— Apesar de a gente focar que nos Estados Unidos existe racismo e reação, no Brasil a mobilização de movimentos negros é muito poderosa. Temos a Experiência Palmares, que é lembrada no dia deste mês. Foi uma experiência de liberdade de três ou quatro gerações de negros no Brasil escravocrata. Então, imagina: num território onde existe uma ditadura escravocrata, um grupo de nobres como Zumbi e Dandara consegue criar uma república, com leis e tudo o mais! Na dramaturgia, a gente só vê as imagens do negro plantando e colhendo, mas isso é errôneo. Havia arquitetura, arte, educação… Essa imagem do quilombo com negros plantando, colhendo e falando errado é a arte sendo usada como ferramenta de destruição para uma população negra. Por isso escrevo sobre pessoas negras. Para negros e para brancos entenderem a experiência que se tem aqui. O projeto de humanidade que a população negra tem não é só para a gente, é para a sobrevivência da humanidade.

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